Elas pescam durante anos, e ficam séculos no mar. Deixadas para trás,
involuntária ou propositadamente, pelos pescadores, em todo o mundo estima-se
que haja 640 mil toneladas de redes fantasma, que continuam a matar e a alterar
o ecossistema marinho. Em Esposende, o município juntou-se a vários parceiros e,
no último ano e meio, desenvolveu um projecto para perceber o impacto deste
fenómeno na orla marítima do concelho, toda ela integrada no Parque Natural do
Litoral Norte, e conseguiu retirar cerca de três toneladas de artes de pesca
inutilizadas do fundo do mar.
Em Portugal, como no mundo, as redes inutilizadas são, muitas vezes, deixadas
no mar: perdidas, por causa das tempestades, enroscadas nas artes de outras
embarcações, que as cortam e deitam ao mar, ou danificadas e, consequentemente,
descartadas pelos seus proprietários. Recurso outrora dispendioso, e por isso
melhor preservado pelos pescadores, as modernas redes de fibras sintéticas são
muito mais baratas e muitas vezes estes arriscam a colocá-las em zonas da costa
onde – junto a cabeços rochosos, por exemplo – se estragam mais facilmente, nota
o biólogo marinho Vasco Ferreira, que coordenou o projecto Redes Fantasma.
Responsável pelo Centro de Mergulho e Ecologia Marinha do Fórum Esposendense,
um dos parceiros do projecto, Vasco Ferreira mergulha há mais de duas décadas. E
desde cedo se apercebeu das dificuldades de convívio de peixes, e outros seres
que habitam neste ecossistema, com as redes deixadas no fundo do mar. Autor do
Guia de Campo - Fauna e Flora Marinha de Portugal, o biólogo encara esta
iniciativa municipal como uma forma de alertar a comunidade, e principalmente os
pescadores, para os efeitos invisíveis, mas duradouros, da sua actividade.
Não é que se possa dizer que os pescadores sejam insensíveis ao problema
ambiental que provocam. Em vários pontos do país há empresas que recolhem redes
inutilizadas, e o negócio, segundo um dos operadores, tem crescido, dado o seu
valor comercial para a produção de uma nova fibra, o Econyl. Mas nas cerca de 60
campanhas de mergulho para retirada de resíduos detectados, os dois elementos da
equipa trouxeram para terra um volume de detritos que, estima Vasco Ferreira,
deverão pesar cerca de três toneladas, o que é apenas uma amostra da verdadeira
dimensão do problema.
Na semana passada, realizou-se em Esposende um seminário sobre o projecto,
que incluiu a apresentação de uma reportagem vídeo, produção do Fórum
Esposendense realizada pelo próprio Vasco Ferreira. Neste trabalho, Augusto
Silva, da Associação de Pescadores Profissionais de Esposende, admite que a
limpeza dos fundos favorece a actividade, ao impedir a mortandade de peixe na
pesca fantasma, e assume que só não se perdem mais redes porque hoje em dias os
pescadores conhecem melhor as previsões do tempo e evitam, sempre que podem,
deixar artes no mar em dias de temporal.
O problema nunca é estritamente local. Os 16 quilómetros de costa de
Esposende são frequentados por embarcações de vários concelhos, e os detritos da
sua actividade são bem notórios junto dos muitos cabeços e nos locais onde
ocorreram naufrágios e restos de chapa ou madeira estragam as redes, assinala o
biólogo, que passou a conhecer este território com mais detalhe.
Os 165 mil euros de financiamento do projecto (que foi apoiado pelo PROMAR,
do último Quadro Comunitário de Apoio) permitiram ao município adquirir
equipamento de mergulho, um mini-ROV, um veículo operado remotamente, que
permite filmar a maiores profundidades e um sonar de varrimento lateral, com o
qual foi feito o varrimento dos fundos.
A identificação das zonas mais problemáticas pode ser uma ajuda para as
autoridades com intervenção neste território marinho, como se percebe nos
depoimentos de outros parceiros prestados para o vídeo de divulgação do
projecto.
“O lixo marinho é um problema ambiental grave”, alerta Fernando Gonçalves, do
Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, que tutela o parque
natural, secundado por Raul Risso, capitão do Porto de Viana, que fala numa
“perda desmesurada” de redes por parte dos pescadores e admite dificuldades na
vigilância da actividade de todas as embarcações que operam na costa.




