Em Esposende e na vizinha vila de Fão, a paisagem está a mudar. Na praia
de Ofir a água vai ganhando terreno ao areal. Mesmo assim, o hotel mais
antigo da zona apresentou-se renovado este verão. Em Esposende há um
restaurante novo e em Fão continua a fazer-se as «clarinhas».
Quando o vento não sopra com a força necessária para a prática de
kitesurf, Tiago Rocha e Pedro Bessa arranjam alternativas para os
turistas que recebem todos os verões na sua escola e empresa de
desportos náuticos Kook Proof.
Num dia sem nortada, no rio Cávado, zona protegida do Parque Natural
do Litoral Norte, alguns jovens equilibram-se em pranchas de paddle
para uma sessão de ioga. «Nesta aula piloto, está a testar-se
pormenores», explica Tiago Rocha, que abriu a escola de kitesurf há dez
anos e montou kite camps quando estes rareavam no Norte do país. «Era
uma coisa pequena», explica Pedro Bessa, que se juntou à equipa há três
anos, pouco depois de a escola ter mudado para o seu nome atual.
Começou por instalar-se no bairro dos pescadores. A comunidade
recebeu bem a escola, porque os surfistas tiveram o cuidado de se
integrar no «espírito do local». Mais tarde, mudou-se para uma sala da
lota que não estava a ser utilizada, ao lado na marina dos
pescadores. «O único barco na marina que não é de pesca é o nosso»,
diz Tiago.
Esposende cresceu acompanhando o
desenvolvimento dos desportos náuticos. «Em agosto só havia turismo de
emigrantes. Não havia turismo desportivo. Este tem tido um impacte
grande nos últimos anos, inclusive impacte visual», considera Pedro.
Onde se testemunha o tal «impacte visual» de que falam é na esplanada
do Sky Valley, primeiro restaurante na cidade totalmente dedicado ao
sushi e aos cocktails. Nesta «varanda privilegiada sobre a foz do
Cávado», assiste-se aos voos rasantes e outras manobras aéreas do kite e
também à velocidade das motos de água. Jorge Rodrigues, que já
organizava festas em Ofir, decidiu agora apostar num projeto «mais
sólido e duradouro» e o «sushi faz todo o sentido aqui», em frente ao
rio e ao oceano.
Aqui, a beleza da orla marítima deu origem a uma das mais cobiçadas
zonas balneares do país. Em frente, há vários hotéis, incluindo o
primeiro que aqui se instalou nos anos 1940. Atualmente no grupo Axis e
recentemente renovado, a unidade de quatro estrelas começou por ser
conhecida por «hotel dos americanos», por alturas do fim da Segunda
Guerra Mundial e passou já por várias fases, das quais dão testemunho
alguns objetos, como o piano de Segundo Galarza, que nos anos 60
animava os serões dos hóspedes, ou as pistas de bowling, na época
únicas, que serviam para os norte-americanos passarem o tempo.
Nessa época, explica José Araújo, diretor da unidade, o hotel era
bem mais pequeno do que é hoje. Atualmente, o hotel, direcionado para
famílias, tem capacidade para receber 460 hóspedes.
A banhos em Ofir
O Parque Natural do Litoral Norte não é só para ver de longe. Com as
suas dunas, o mar, pinhais e lagoas, esta zona protegida estende-se ao
longo de 16 quilómetros entre o rio Neiva, a norte, e a freguesia da
Apúlia, a sul, passando pelo estuário do Cávado.
Existem percursos sinalizados para fazer a pé ou de bicicleta. Um
deles é o trilho «Entre o Cávado e o Atlântico» que tem o seu início no
Clube Náutico de Fão. Relativamente curto, o percurso permite caminhar
sobre passadiços que cruzam o cabedelo. De resto, Fão pode conhecer-se
toda andando a pé, desde a ponte oitocentista que cruza o Cávado,
passando pelo centro até Ofir.
Contemporânea do hotel, como marca registada, é a Pastelaria
Clarinhas, onde nasceram as famosas «clarinhas de Fão». Estes pastéis de
massa tenra recheados com doce de chila foram patenteados em 1947. Mas
começaram a ser produzidos muito antes. «Uns dizem que a receita nasceu
num convento, outros, numa casa senhorial», conta Pedro Alves, que está à
frente da pastelaria, admitindo que pouco se sabe sobre a origem do
doce. Sabe, sim, que a sua família o faz há mais de cem anos. Continua a
ser o único sítio que vende as originais, feitas artesanalmente.
Uma confeitaria histórica e um «bar pirata»
Ir embora de Fão sem comer clarinhas e sem se ir conhecer o Bar do
Fojo é perder parte da história da vila. Aberto em 1974, este «bar
pirata» do pescador, poeta, filósofo e artista Sérgio Cardoso é
contemporâneo da Revolução de Abril.
Ele próprio revolucionou a vila com o seu espaço aberto a todos, de
pescadores a marinheiros, de turistas a boémios e agora muitos
entusiastas de kitesurf, que Sérgio já homenageou numa das paredes do
bar.
Onde antigamente havia um estaleiro, este bar-barco foi sendo
construído aos poucos e ficará «por acabar», admite Sérgio, que gere o
espaço com a ajuda do filho, também Sérgio e também pescador. Antes da
partida, brinde-se com uma tigela de «botas de água», bebida
ligeiramente doce que Sérgio gosta de aromatizar com uma folha de
eucalipto.